....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

Não sabemos se o estado de medo em que vive a Europa e o Mundo neste início de Século XXI, com os grandes “impérios” a fazerem jogadas arriscadas no tabuleiro geopolítico, se assemelha àquele que se vivia no início do Século XX. Sabemos no entanto que a solução encontrada para resolver essa insegurança, “a guerra para acabar com a guerra” como lhe chamaria Woodrow Wilson, deixaria a Europa e o Mundo num estado de incerteza ainda maior, que teria o seu desfecho trágico na Segunda Guerra Mundial. Foi no ano de 1918, sobre o qual se celebrarão no próximo ano os 100 anos do final da Primeira Guerra, que este estado de “paz podre” havia de ser atingido, e os soldados Portugueses em França poderiam finalmente começar a longa viagem de regresso a Portugal.

É precisamente através das viagens entre Portugal e a França que podia definir-se a história da minha família no século XX. E é inevitável chegar à conclusão de que todas elas tiveram a ver, de forma mais ou menos directa, com a Primeira ou com a Segunda Guerra Mundial. O meu bisavô Francisco Nobre, soldado na Primeira Guerra, foi o primeiro a viajar para França.

Ainda longe estava a primeira viagem que eu faria em 1981 no avião entre Lisboa e Paris, demasiado novo para me lembrar, ou a viagem do meu avô Joaquim Vaz, em 1959, quando a França entrava nos anos dourados do crescimento económico e ainda a reconstruir-se da Segunda Guerra, e o meu avô atravessaria as fronteiras com a ajuda de um passador, até chegar ao sul de França onde arranjaria trabalho e uma “carte de séjour”, para mais tarde levar os oito filhos e a mulher (filha do soldado Francisco Nobre) também para França.

Mas foi a primeira viagem, a de 1917, em que o meu bisavô embarcaria no Cais do Conde da Rocha de Óbidos rumo ao Norte de França, para depressa se enfiar nas trincheiras, que começou por exercer em mim um fascínio particular com a chegada do centenário do início da Primeira Guerra.

Lembro-me de perguntar a uma vizinha da aldeia se se recordava da Segunda Guerra, e de ela ter respondido que se lembrava bem era da Primeira Guerra, dos soldados que ela apelidou de “miúdos que saíam de casa tristes e a chorar por terem de ir para a guerra”. Aquele pedaço de informação serviu como uma corrente de transmissão de memória contada, que me liga directamente àqueles soldados e àquela altura, com uma força que nenhum documento ou história contada em segunda ou terceira mão poderia ter. Esta imagem fixou-se forte e viva, e ainda hoje se mantém, como se a vizinha fosse uma espécie de câmara de filmar e projector, que captou aquela cena em 1917.

É também isto que reveste os acontecimentos da Primeira Guerra de um estatuto muito particular de charneira entre História e memória. Sobre acontecimentos mais recentes ainda há sobreviventes (Segunda Guerra, por exemplo), e sobre os mais antigos já não há memória, apenas História. Os anos da Primeira Guerra vivem assim numa espécie de limbo, prestes a ser perdidos para sempre, condenados a viver nos livros de História, tal como todos os acontecimentos históricos, sem qualquer memória ou emoção humana e pessoal associada.

Desde cedo foram surgindo referências ao bisavô longínquo. A primeira foi provavelmente porque a minha bisavó recebia uma pensão, supostamente do Estado Francês, por o marido ter estado na Primeira Guerra. Uma tia minha conta que até havia carne para comer em casa dela, tal era a “fartura” que a pequena pensão permitia em relação aos outros habitantes da aldeia. Uma das últimas referências ao meu bisavô, que ouvi há poucos anos, foi que a razão pela qual teria problemas de pulmões, foi porque foi gaseado nas trincheiras, informação que passados quase cem anos ainda mantinha a força de chocar e entristecer a minha mãe.

Uma força irresistível atraia-me para todas estas questões, quando em conversa com a minha Tia Cecília Nobre Vaz, a primogénita dos irmãos da minha mãe, ela diz que há-de ir a uma vizinha pedir emprestada uma fotografia onde figura o meu bisavô.

 

 

 

Na imagem encontra-se um grupo de soldados do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.), provenientes da aldeia do meu bisavô, Alfaiates, no concelho do Sabugal, incluindo o meu bisavô.

A ideia de fazer um projecto documental à volta do meu bisavô, que se ia misturando a pouco e pouco com o fascínio por esta personagem e por esta época, levou um golpe sério quando me apercebi de que não havia ninguém que o conseguisse identificar na imagem pois hoje já não há ninguém vivo que o tenha conhecido.

Como fazer então um filme sobre um homem, sem uma única imagem dele? O que colocar em banda de imagem, à medida que o texto discorre sobre o que terá acontecido a este homem?

A procura da imagem do meu avô, não é muito diferente da procura pela história e pela memória dele. É também uma investigação difícil, cheia de buracos, elipses, e que recai constantemente na inevitabilidade da impossibilidade de resgatar a história do meu bisavô. Tanto ele como a imagem dele, foram lentamente engolidos pelos cem anos que nos separam, e sobra apenas uma espécie de ruína, que nos diz mais sobre ela própria - sobre os fragmentos que a compõem - do que propriamente sobre o meu bisavô. Mas acaba por ser esse retrato incompleto do meu bisavô e dos outros soldados, o retrato mais fiel.

A imagem que dá o mote para o “O Soldado Nobre”, da fotografia de grupo dos soldados, reveste-se da ideia de ruína: ela é composta por pessoas que já não existem e sobre as quais pouco ou nada se sabe, e além disso, as cores da imagem, o tipo de impressão, as roupas, as caras dos soldados, remete tudo para um passado distante. Assim, com a pouca informação que esta imagem fornece, o filme agarra-se à eventual capacidade metonímica de nos poder contar histórias maiores a partir de uma parte, a partir de detalhes, a partir de comparações, a partir de magnificações. E da mesma forma que os detalhes da imagem nos contam histórias sobre a imagem como um todo, a história de Francisco Nobre conta-nos a história de todos os soldados, conta-nos a história de um país que participou num combate mundial com poucos recursos para o fazer, conta-nos a história de uma tragédia que deixou duas mil famílias sem pais, tios, irmãos e filhos.

Em conclusão, através da história possível de Francisco Nobre, o filme pretende contar uma história sobre os portugueses na Primeira Guerra, que mais do que historicista, é um resgate de memória. Resgate incompleto, fragmentado, mas emocional, contado de uma forma que as gerações futuras não o conseguirão fazer, tão longe estarão destes acontecimentos como nós estamos da Guerra dos Dois Irmãos. Um exercício de pós-memória enquanto ainda é possível: em breve ficará apenas a História.

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