....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

A minha família inteira emigrou para França nos anos 60, mas a minha mãe regressou passados poucos anos. A razão pela qual voltou mais cedo nunca foi muito clara, e a minha mãe sempre sentiu uma profunda amargura de ter sido afastada dos pais e dos sete irmãos quando acabava de completar onze anos de idade. Veio para Portugal, mas o coração ficou em França.
Eu nasci em Portugal passados quinze anos, mas por causa da minha mãe, sempre me senti preso entre os dois países. Tal como ela, nunca fui francês, mas também nunca me senti completamente português. Pode ter sido esta inquietude que fez com que, até eu ter 18 anos, a minha mãe tenha decidido mudar oito vezes de casa.

Esta ideia de geografia fragmentada ressoou particularmente quando há uns anos atrás, no livro “Os Anéis de Saturno” de W.G. Sebald, li uma conversa que o narrador tem com o poeta e tradutor Michael Hamburger, em que este último lhe relata que por vezes, quando sonha, mistura num mesmo espaço a casa onde viveu em Berlim quando era jovem com a paisagem campestre inglesa onde viveu mais tarde.
Michael Hamburguer, de origem judaica, fugiu com a família da Alemanha para Inglaterra em 1933, o que fez com que as memórias de infância ressurgissem nos sonhos para se misturarem com imagens do presente. Desta mistura, criou-se um novo espaço imagético, com uma configuração própria, e que existe apenas nos sonhos de Michael Hamburger. Parece surgir assim um mundo novo de sítios e imagens, sobre os quais existe a possibilidade de discurso, reflexão e até poesia. Não foi só a ideia da geografia fragmentada que mexeu comigo, a questão dos sonhos e da imaginação enquanto construtores de imagens também me interessou.

Desta conjugação de imagens produzidas pelos sonhos com geografias fragmentadas, duas ideias que mexem muito com a minha história pessoal, surgiu a ideia de um “mapa-esquisito”, uma reflexão sobre estas questões, tendo por base a minha história de vida e a da minha família.
Tal como os Atlas costumam estar recheados de mapas, este mapa esquisito está recheado da ideia por detrás dos Atlas, que Georges Didi-Huberman formula desta forma: eles oferecem-nos um saber que é visual e uma visão do saber, para além de que vivem entre o saber das palavras e a inteligibilidade das imagens, mas sem estarem propriamente dentro de qualquer um destes campos, vivem num território único.
As imagens que desfilam perante o espectador em “mapa-esquisito”, estão reunidas como num Atlas, com associações visuais ou temáticas, por uma ordem que nem sempre é clara. À ideia de gruta, por exemplo, o documentário associa o espaço mais profundo dos sonhos, uma caverna, uma passagem de Dom Quixote ou um quadro sobre o Hades descrito pelos Gregos. Através da sua liberdade associativa, quase solta, fragmentada, acabam por dar uma solidez e coerência a um conjunto. E é também através desta paisagem visual preenchida como se de um Atlas se tratasse, que o formato de filme-ensaio em que o “mapa-esquisito” se instala vive de uma interacção entre imagem e texto, cuja tensão e diálogo sobrepõem-se ao eixo redutor de imagens ilustrativas vs não ilustrativas de que este género sofre não raras vezes.

Para além das imagens produzidas pelos sonhos, também as imagens produzidas ou transformadas pela imaginação parecem revestir-se de uma espécie de aura que também interessa à linguagem e à história deste documentário. Cruzam-se assim vários temas nesta viagem pessoal: a fragmentação geográfica, as migrações, a natureza das imagens, os sonhos, a imaginação e os símbolos. Assim, os vários capítulos, encabeçados por títulos retirados do catálogo de símbolos e alegorias da História da Arte, encadeiam-se com as várias histórias que vou contando: Sonho, Caverna, Pesadelo, Torre, As Artes, Morte, Fuga.
Os sonhos, os pesadelos e as imagens que vivem na minha imaginação andam à volta das muitas casas por onde passei, das touradas que havia na minha aldeia, dos livros que li, dos filmes que vi e de outras coisas que não sei bem definir. E é à 6 volta destas histórias, sonhos e imagens que se constrói este documentário. Um documentário que não tenta contar uma história de forma linear e cronológica, mas sim misturando a realidade com os sonhos, pois também eles formam a personalidade e fazem parte da história da minha vida.

Uma história pessoal marcada pela fragmentação geográfica, fruto dos caprichos dos meus pais, por oposição à fragmentação geográfica de Michael Hamburger, fruto das guerras do Século XX. Tolstoi defende que são sempre os percursos individuais, e não a vontade dos grandes líderes, que definem a História do Mundo. Ainda assim, a história das pessoas está longe de ser apenas o resultado dos percursos individuais. Guerras e Pais: as grandes forças motrizes da emigração? Sonho com um futuro em que a fragmentação das geografias é só fruto da inconstância dos indivíduos, tal como me aconteceu a mim, sorte que Michael Hamburguer não teve.

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