....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

Os caminhos de Catarina Laranjeiro e Daniel Barroca até chegarem ao filme contados por este último: Nasci em 1976, dois anos depois do fim da guerra colonial. O meu pai combateu na Guiné-Bissau entre 1972 e 1974. Quando voltou para Portugal em meados de 74 trouxe com ele um álbum de fotografias da guerra.
Quando eu nasci, o álbum andava à solta pela casa juntamente com as outras fotografias da família. Não me lembro da primeira vez que vi essas imagens, sei que olho para elas quase diariamente desde sempre e que a minha cultura visual se formou a partir delas. Hoje, quando olho para desenhos e pinturas que fiz ao longo do meu percurso artístico (principalmente nos que fiz na Künstlerhaus Bethanien em 2008, com uma bolsa Gulbenkian, e na Rijksakademie em Amesterdão entre 2010 e 2011) vejo fragmentos dessas imagens por todo o lado. No meu trabalho em artes plásticas sempre me debati com o gesto de representar uma guerra que, apesar de não ter sido diretamente vivida por mim, está profundamente incrustada nos meus afetos.

A Catarina Laranjeiro viveu na Guiné-Bissau durante dois anos nos quais trabalhou para um par de ONG’s ligadas ao desenvolvimento e à educação. Foi nesses projetos que atravessou o país de lés a lés ficando a conhecer a história colonial contada pelos guineenses bem como a situação do país desde a independência. Essa experiência deu-lhe a ver e ouvir as diversas narrativas que circulam de boca em boca e que raramente se encontram nos livros sobre quem eram os bons e os maus, quem estava com quem, quem ficou contra quem, quem matou e quem foi morto, quem disse a verdade e quem não disse, quem fugiu para outro lugar ou desapareceu para sempre no mato. Foi nesta fase que tomou contacto com o material que lhe serviu de ponto de partida para a pesquisa de mestrado em Antropologia Visual (Universidade Nova) sobre álbuns fotográficos de ex-combatentes do PAIGC e as suas experiências no terreno.

O nosso diálogo desenrolava-se sempre à volta do trabalho que fazíamos em torno das imagens da guerra colonial. No início de 2016 convidou-me para ir com ela trabalhar na fase de pesquisa de um novo filme (com o apoio do ICA) que tinha decidido fazer sobre o papel dos curandeiros Balantas animistas no movimento de libertação durante a guerra colonial / luta de libertação. A ideia era irmos para uma aldeia no sul do país chamada Unal, onde a guerra tinha sido muito forte, para observar as práticas de ‘feitiçaria’ locais e perceber como é que os guerrilheiros nos anos 60 e 70 as utilizavam como arma contra o exército português. Paradoxalmente, chegar a Unal foi como chegar a uma camada mais profunda da nossa própria memória da guerra.
Em muitos momentos era como se as fotografias do álbum tivessem ficado a cores e sido ampliadas ao ponto de as podermos habitar. De repente estávamos num tempo anterior ao nosso nascimento.

Encontrámos ali, sem dúvida, aspectos da guerra que não conhecíamos. Uma vez no terreno tudo ganha uma outra densidade, surgem inúmeras contradições, novas camadas de entendimento, o que era claro fica turvo e vice-versa, deparamo-nos com novos elementos narrativos. Tudo fica mais real, as ideias para o filme complexificam-se e ganham força enquanto imagens. Foi neste processo de adaptação àquela distante realidade que começámos a absorver o estado de espírito que nos permitiu adaptar o olhar a novas condições de percepção (um pouco como quando vamos conseguindo ver melhor numa sala quase sem luz).
Foi essa imersão nas rotinas de Unal que nos desbloqueou o olhar e abriu espaço para os irãs emergirem na nossa imaginação. Carmen Pereira, Comissária Política do Comité Inter-Regional do Sul do PAIGC empunhando a sua arma / arquivo Casa Comum - Fundação Mário Soares.

É assim que esses espíritos da terra, esses habitantes da floresta que os feiticeiros animistas mobilizaram para a guerra, e que a Catarina desde o início queria filmar, acabam por desempenham um lugar bastante mais complexo do que esperávamos na concepção do nosso projeto. Para nós é difícil entender a totalidade da sua ação nas vidas daqueles camponeses, mas foi através deles que os espectros da guerra, para nós até então circunscritos1 a um imaginário muito português, se começaram a soltar e a assumir outras configurações.
Ou seja, é através dos espíritos Irãs que hoje vemos coisas da guerra colonial que antes não víamos e que nunca encontraríamos na historiografia portuguesa da guerra. O nosso principal objetivo é entrar no espaço difuso, nesse entre mundos, de onde essas presenças emergem, refazendo a nossa própria história. “Os visitantes” (Irãs) - só eles podem viajar entre o mundo que para nós é visível e toda uma série de mundos para nós invisíveis. Numa viagem anterior à minha ida, a Catarina já havia sido adotada e batizada como Nibló M’Batcha por Padé M’Batcha, um ex-combatente guineense do exército português, que a acolheu em sua casa. A história rural daquele país é em grande medida feita dessa confusão, de gente que se sentiu explorada e traída pelo colono e depois pelo libertador.

Depois de uma semana a viver em Unal, um dos habitantes da camada mais jovem da tabanca batizou-me como Isnaba. No instante seguinte, um velho chamado Fogner N’Iogna (da família de Padé M’Bacha), adoptou-me como seu ‘filho’ e disse-me: ‘tu agora és meu filho e chamas-te Isnaba N’Iogna.’ Este meu novo pai Balanta tinha uma história extraordinária para nos contar – ele tinha muito presente na memória os ataques à ponte Caium em que participou durante a luta.
A ponte Caium é o lugar onde estava aquartelada a companhia na qual o meu verdadeiro pai havia sido incorporado já praticamente no final da guerra. O velho álbum de fotografias da guerra que referi no início deste texto está pejado de imagens desse esquecido e poeirento campo de batalha, onde os meus dois pais, o Português e o Balanta, lutaram um contra o outro.
Percebemos que Unal materializa essa estranha fronteira, esse espaço de convergência onde a história e as estórias se encontram e se misturam.

Neste filme, Unal é o espaço onírico dos fantasmas da guerra no qual, algures no tempo, combateram homens como Flac, Fogner, Padé, e o meu pai.

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