....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

Vila do Bispo, onde habitualmente passo férias, está geminada com Tanegashima, uma ilha ao sul do Japão, onde os portugueses estabeleceram os primeiros contactos no séc. XVI. Na biblioteca de Vila do Bispo iniciei pesquisas sobre o Japão, pais que iria visitar em 2004, numa viagem já planeada sobre o tema do Pinheiro (matsu). No regresso, outros interesses pessoais surgiram: o estudo da língua, o Budismo e o questionamento sobre o trabalho e sobre a forma de, com ele e através do respeito de uma ética muito particular que lhe está associada, acrescentar valor à sociedade.

Neste projeto pretendo explorar 2 ideias centrais que, não sendo especificas do povo e da cultura japonesa, aqui estão sempre muito presentes: a importância de lutar contra as adversidades e a importância da dedicação ao trabalho.
A primeira ideia será explorada indo ao encontro das virtudes do pinheiro, através de alguns aspetos simbólicos e culturais. A segunda ideia será explorada indo ao encontro das virtudes dos jardineiros de pinheiros, registando o seu trabalho com estas árvores.
Os japoneses têm uma índole contemplativa e procuram na natureza a compreensão e a inspiração para as dificuldades do quotidiano.
Confrontados com dificuldades que não podem controlar, são encorajados a procurar a felicidade pela via da integridade, dando o melhor nas tarefas que fazem, principalmente quando elas tem um reflexo directo na sociedade.
A luta do pinheiro contra as adversidades, que nas regiões mais setentrionais se mantém verde debaixo de grandes mantos de neve, ou que no litoral exposto a ventos fortes e persistentes desenvolve raízes fortes, justifica que os japoneses pretendam absorver as suas virtudes. É assim um tema muito recorrente na arte figurativa, no teatro e nos jardins, onde ocupa lugares de destaque.
No teatro “Noh”, um drama musical com dança e máscaras, representado ao ar livre em santuários e em templos, o pinheiro era o único cenário. O moderno “Noh” passou para os palcos, mas continua a ter como cenário a pintura de um pinheiro muito antigo. Esta simbologia associada ao pinheiro foi notada e registada pelos padres Jesuítas Portugueses logo nos primeiros contactos entre europeus e Japoneses no Sec XVI. Ao encontrar estes novos valores estéticos deram conta de uma nova sensibilidade. Os jardins do Xogum espantaram Luis Frois pela graciosidade e beleza, que descreveu com entusiasmo as plantas do jardim, de tal forma que parece que estamos a ver as árvores e a sentir o odor das flores.
Wenceslau de Moraes, no seu mister de penetrar a alma japonesa fica muito impressionado com estas árvores e com as suas formas: “As árvores! Os pinheiros, os Matsu, sobre todas!… Não se pode mesmo conceber retalho de paisagem Japonesa sem pinheiros.”
O jardineiro é uma pessoa muito considerada no Japão. Aqueles que cuidam dos pinheiros são os mais prestigiados e ocupam o topo da hierarquia. Com um cuidado extremom o crescimento do pinheiro é habilmente conduzido com cordas de palha de arroz e com estacas de bambu, com a intenção de obter formas harmoniosas. O trabalho de poda de uma árvore pode levar mais de uma semana. Um trabalho feito com zelo e dedicação. Os gestos, simultaneamente tranquilos, e atarefados revelam paciência, sabedoria e concentração. Sem pressa, mas sem poupar no esforço. O ideograma issogashii (atarefado, apressado) é composto por dois ideogramas que significam “perder a alma”. A pessoa pode perder-se ao trabalhar com tanta pressa.
Procuro sublinhar as virtudes da dedicação ao trabalho com eficácia mas sem pressa, sem perder a alma, pretendo ficar atento à dedicação que colocam nos trabalhos que realizam; à ligação à natureza com quem estabelecem uma relação muito próxima; à profundidade espiritual das suas vidas.
Pretendo com este projeto fazer uma reaproximação ao pinheiro através de velhas e novas leituras, contribuindo para um diálogo civilizacional iniciado pelos Jesuítas Portugueses no séc. XVI.
“Contempla o pinheiro e absorve as suas virtudes”, Bashô.
Contempla os seus jardineiros e imita as suas qualidades… acrescentamos nós.

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