....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

....

Há a primeira viagem, a partida para a França e a chegada, numa manhã do inverno de 65, num cais da gare de Austerlitz em Paris. Tínhamos aí desembarcado, bruscamente estrangeiros, a caminho de uma vida melhor. Mas nós preferimos contar as peripécias das autênticas expedições que eram as primeiras partidas de férias à terra. Essas recordações, banhadas de verões cheios de sol, são mundos e maravilhas, postais e fotografias de férias, das viagens das quais eu não queria regressar.

É uma travessia que conta a ligação tão particular entre aquele que partiu e o lugar que deixou, que fala desse apego à terra da infância quando a deixamos brutalmente. Sempre me pergunto o que teria sido da minha vida se tivesse lá ficado. É uma viagem que vagabundeia no passado, que atravessa territórios imaginários da infância. Nessa transição para um mundo que desaparece, a procura de um país perdido, passa-nos pela cabeça tantas e tantas recordações que a memória cai por vezes no caos.

É uma sessão à porta fechada dentro de um carro, onde estamos sob a custódia da nossa memória, reféns do nosso passado. As lembranças inundam e, muitas vezes, uma enchente de emoções me submerge. Às vezes, passado e presente parecem unir-se, as rupturas apagam-se e uma nostalgia doce e reparadora atravessa esse périplo. Nesta concordância dos tempos, o trajecto torna-se uma ponte lançada entre o sonho e a realidade. Na estrada que nos conduz àquela que foi outrora a nossa terra prometida, quando o regresso era o nosso mito, passamos em revista os nossos sonhos de emigrantes devorados pela ausência.

Precisamos que cada viagem seja um milagre. Sem desejo e sem esse perpétuo apagamento da realidade e do tempo que passa provocado pela ausência, não há verdadeira viagem à terra da infância.

..

There is the first trip, the departure for France and the arrival, on a winter morning of 65, on a pier of the Austerlitz gare in Paris. We had landed there, sudden strangers, on the way to a better life. But we prefer to tell the adventures of the expeditions that were the first vacations in the country. These memories, bathed in sun-filled summers, are worlds and wonders, postcards and holiday photographs, of the trips from which I did not want to return.

It is a crossing that tells the very particular connection between the departed and the place he left, which speaks of this attachment to the land of childhood when we leave it brutally. I always wonder what would have been of my life if I had stayed there. It is a journey that wanders in the past, which crosses imaginary territories of childhood. In this transition to a world that disappears, the search for a lost country, we go through so many memories that memory itself sometimes falls into chaos.

It's a closed-door session inside a car, where we're in the custody of our memory, hostages to our own past. Memories flood, and often a wave of emotions submerges me. Sometimes past and present seem to unite, ruptures are extinguished and a sweet and healing nostalgia runs through this journey. In this concordance of times, the path becomes a bridge between dream and reality. On the road that leads us to what was once our promised land, when the return was our myth, we reviewed our dreams of emigrants devoured by the absence.

We need every trip to be a miracle. Without desire and without this perpetual obliteration of reality and time caused by absence, there is no true journey to the land of childhood.
....

PT
EN