....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

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« Devant une image nous avons humblement à reconnaître ceci: qu’elle nous survivra probablement, que nous sommes devant elle l’élément fragile, l’élément de passage, et qu’elle est devant nous l’élément du futur, l’élément de la durée. L’image a souvent plus de mémoire et plus d’avenir que l’étant qui la regarde.»

G. Didi-Huberman

 

Nos últimos anos, o meu trabalho tem incidido particularmente na temática do Estado Novo. Muitos têm sido, por conseguinte, os arquivos que consultei e as imagens que vi. Uma das sensações mais impressionantes foi, sem dúvida, a entrada nos arquivos da Polícia Política. Aí iniciei uma investigação profunda: consulta de processos, levantamento de material iconográfico, leitura das disposições e métodos de actuação da PIDE. Uma experiência, no entanto, marcou a minha pesquisa: a abertura dos álbuns com as fotografias dos presos políticos. À medida que me ia detendo nas fotografias, à medida que ia tentando escavar mais fundo, mais à superfície surgia a sensação de que há nestas fotografias algo de indizível, algo que não se deixa explicar e muito menos apropriar.

Natureza Morta – Visages d’une Dictature surge da vontade de pensar essas imagens; imagens que, aparentemente, são iguais a todas as outras imagens de todos os presos políticos de todas as ditaduras. Imagens que me conduziram a outras do mesmo tempo, todas elas resultantes de uma certa encenação do poder: actualidades, reportagens de guerra, filmes documentais de propaganda, mas também rushes nunca utilizados nas montagens finais. Imagens de arquivo, na maior parte das vezes a preto e branco, que constituem um vasto espectro de documentos visuais da época.

Através delas, Natureza Morta – Visages d’une Dictature pretende mostrar a vida (e, em certa medida, o seu reverso) de um regime autoritário tomando como linha orientadora os traços que são comuns à generalidade das ditaduras: uma ideologia de integração, um sistema de controlo da sociedade, um modelo que reconstrói o passado e determina o futuro em função da ideologia, a utilização da figura do “salvador”, o envolvimento da família na nação.

Assim, a identificação de personagens, locais ou factos históricos, não será essencial; mais do que contar ou explicar a história do Estado Novo, interessa dar corpo a uma experiência presente em que as imagens podem mesmo encontrar-se libertas do seu programa original. Essa ideia é reforçada pela ausência de qualquer discurso verbal.

Trata-se aqui, sobretudo, de detectar sintomas nas imagens que nos remetem para uma outra realidade, uma realidade que está para além daquela que é percepcionada à superfície, num primeiro momento. Pois se há um tempo que se cristaliza na imagem, há também movimentos que a atravessam e que subsistem para além dela e que têm a ver não só com a própria memória do espectador mas também com o presente que se vive.

Daí o título original do filme: Natureza Morta / Stillleben (Still Life), morte e vida para designar o mesmo, se bem que o termo nas línguas latinas encerre por si só um primeiro paradoxo, uma vez que toda a natureza é vida. Morte-vida (ou vida morta), ou ainda, numa segunda oposição, movimento-quietude, a quietude dos seres que ainda respiram, ou a aparente morte de seres que apesar de tudo ainda se movimentam. Metáfora para as imagens cinematográficas de um tempo passado, metáfora para qualquer coisa que ainda hoje respira dentro de nós.

Susana de Sousa Dias

 

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«Devant une image nous avons humblement à reconnaître ceci: qu’elle nous survivra probablement, que nous sommes devant elle l’élément fragile, l’élément de passage, et qu’elle est devant nous l’élément du futur, l’élément de la durée. L’image a souvent plus de mémoire et plus d’avenir que l’étant qui la regarde.»

G. Didi-Huberman

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