....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

Há alguns anos fiz uma descoberta que me perturbou profundamente.
Ao escolher imagens de arquivo para um dos meus filmes, deparei-me, por acaso, com uma pequena reportagem do final da década de 1950. No foco da mesma estava um grupo de marinheiros soviéticos que viajavam à volta do continente africano.
O título foi bastante banal: "Pelas Costas de África". No meio da tripulação, todavia, viajavam Vyacheslav Gulin e Rafael Chevalier, dois operadores de câmara de São Petersburgo, que na altura ainda se designava Leningrado.
De repente tinha encontrado os primeiros personagens deste novo filme: marinheiros e cineastas. Com o aumento da intensidade do envolvimento soviético em África aumentou igualmente o número de trabalhos. Após as primeiras imagens filmadas ao longo da década de cinquenta na África do Norte e África Sub-Sahariana, vinte anos mais tarde, literalmente, todos os países da África Ocidental, Oriental e do Sudeste incluindo Moçambique e Angola foram temas de inúmeras reportagens.

Em total, cerca de mil filmes foram produzidos para documentar 35 anos de presença soviética em África. Este espólio constitui a base para o filme A Nossa África. A câmara soviética acreditava no continente africano e no seu "futuro brilhante". Mas esta crença foi também um sinal dos tempos. Na verdade, durante os anos 60, a África tinha-se tornado uma prioridade não só na política da União Soviética como também na ciência e na cultura: línguas, - 4 - tradições e arte africanas tornaram-se objecto de estudo.
Os povos da União Soviética estenderam à África a mão da amizade: inúmeros abraços e beijos de fraternidade.

Ao mesmo tempo, a África foi moldada à imagem soviética, imitando todos os seus atributos externos: desfiles militares, marchas de atletas, laços vermelhos, fazendas agrícolas colectivas e o sistema de partido único. Havia discursos em fábricas, escolas, ruas e praças em que se defendia a libertação do fraterno povo africano dos colonizadores. No entanto, paradoxalmente, o percurso natural da história uniu-nos muito mais aos africanos do que parecia na altura. Foram tempos de mudança e de esperanças.
E enquanto os africanos tinham as suas esperanças de liberdade e independência, nós vivíamos o nosso "descongelamento" na década de 1960. Foi nomeadamente esta a razão pela qual os cineastas soviéticos filmaram a África de uma maneira como ninguém jamais poderá voltar a fazê-lo. Qualquer africano aleatoriamente tirado da multidão pela câmara transformava-se numa imagem de mudança. Afinal de contas, ele estava sendo vigiado pelo "olho" inquisitivo de um cineasta inspirado no vôo espacial de Yury Gagarin.

O fim do colonialismo em Angola, Moçambique e Guiné obrigou a União Soviética a preparar tradutores para a língua portuguesa. Eram principalmente tradutores militares, uma vez que nos território em questão as guerras não tinham acabado, só mudaram os inimigos. As experiências turbulentas dos tradutores serão o elemento final na cadeia dos personagens.

O documentário A Nossa África é mais do que um livro ilustrado de histórias sobre a África. No centro do filme estarão as pessoas enviadas da União Soviética para o continente africano onde viveram acontecimentos decisivas não só para a sua própria vida como para a história do séc. XX. Interessa-me contrastar as imagens do resultado das suas viagens, as reportagens oficiais, com as histórias particulares e frequentemente íntimas das pessoas que se encontravam realmente no local. As suas pequenas histórias darão uma nova vida ao material de arquivo, mostrando ao espectador de hoje muitos aspectos desconhecidos da dramática odisseia soviético-africana.

PT
EN