....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

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Partir para a guerra ou partir para a pesca do bacalhau? Já quase ninguém recorda que os jovens portugueses tinham nesta alternativa uma possibilidade de escapar aos perigos de um conflito militar em três frentes.

Os pescadores bacalhoeiros estavam sujeitos a condições especiais, particularmente duras, a uma disciplina muito semelhante à militar. Quando iniciámos este projecto, fascinava-nos, em particular, o dilema imposto pelo regime de os homens terem que escolher entre a guerra colonial e a pesca do bacalhau.

Iniciámos o trabalho de pesquisa convencidos de que muitos jovens do interior teriam escolhido partir para a pesca do bacalhau, por ela ter a vantagem sobre a guerra colonial de ser um trabalho remunerado e de gozar da auréola romântica e heróica construída pelo regime. À medida que nos envolvíamos na pesquisa de documentos e de testemunhos, fomos descobrindo que a pesca não tinha esse poder de atracção senão para aqueles que já estavam familiarizados com o mar. Terá sido porque o recrutamento se fazia apenas nos centros piscatórios? Terá sido porque aqueles que iam para a guerra colonial já sabiam que o que os esperava nos bancos do Norte era algo parecido com uma guerra? A nossa ideia de partida começava a ser abalada, o que fazia crescer ainda mais a motivação para fazer deste filme uma oportunidade de investigação «ao vivo». Pelos relatos que tínhamos ouvido sobre a pesca nos bancos da Terra Nova, parecia-nos tratar-se efectivamente da escolha entre duas guerras.

«Sem a guerra, não teria havido pesca do bacalhau», diz-nos um dos antigos pescadores do filme. Com efeito, nos anos 50, a PIDE andava pelas praias, a recrutar à força pescadores para os bancos da Terra Nova. Mas, quando rebenta a guerra colonial, e perante a escolha que lhes é imposta pelo regime, são os próprios pescadores que passam a procurar ser contratados nos bacalhoeiros para «fugir à guerra».

Neste documentário, tomamos como marcos o início dos anos 60 e o final dos anos 70. É um período de mudanças importantes na política portuguesa da pesca do bacalhau, que coincide com o início e o fim da guerra colonial em África e com um dos grandes fluxos de emigração também relacionado com a guerra e as suas consequências económicas e políticas: por um lado, a pauperização de largas camadas da população; por outro, uma deserção numerosa. Esse período irá prolongar-se até meados dos anos 70 com a queda do regime, em Abril de 1974, e o desmantelamento da frota bacalhoeira.

Damos, no nosso trabalho, um especial valor aos contributos orais dos protagonistas, com toda a carga de subjectividade que eles trazem consigo. A história não se faz apenas a partir dos arquivos. É indispensável que no reviver desta parte da história portuguesa participem os actores directos que trabalharam a bordo dos navios bacalhoeiros e que felizmente ainda se encontram entre nós, hoje, para nos poderem transmitir as suas memórias.

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To go to war or to go cod fishing? Almost nobody remembers that the young portuguese people had in this alternative the possibility to escape the dangers of a military conflict on three fronts.

The cod fishermen were subject to special conditions, particularly harsh, and to a discipline very similar to the military. When we started this project, we were particularly fascinated by the dilemma imposed by the regime that men had to choose between colonial war and cod fishing.

We began our research convinced that many young people from the countryside would have chosen to go fishing for cod because it had the advantage over the colonial war of being paid work and having a romantic and heroic halo, promoted by the regime. As we got involved in researching documents and testimonies, we discovered that fishing had no such appeal except for those who were already familiar with the sea. Was it because the recruitment was only in the fishing centers? Was it because those who went to the colonial war already knew that what was waiting for them in the Northern banks was something like a war? Our idea of eparture was beginning to be shaken, which further increased the motivation to make this film an opportunity to do "live" research. From the reports we had heard about fishing in the banks of Terra Nova, it seemed to us that this was indeed the choice between two wars.

"Without the war, there would have been no cod fishing" - said one of the former fishermen in the film. Indeed, in the 1950s, the regime's secret police would go around the beaches and forcibly recruit fishermen for the banks of Terra Nova. But when the colonial war breaks out, and given the choice imposed by the regime, it is the fishermen themselves who seek to be hired in cod fishing to "flee the war."

In this documentary, we took as a framework the beginning of the 1960s and the late 1970s. It is a period of major changes in Portuguese cod fishing policy, which coincides with the beginning and the end of the colonial war in Africa and with one of the great flows of emigration also related to war and its economic and political consequences: on the one hand, the impoverishment of large sections of the population; on the other, a large desertion. This period will continue until the mid-1970s with the fall of the regime in April 1974 and the dismantling of the cod fishing fleet.

In our work we give a special value to the oral contributions of the protagonists, with all the subjectivity that they bring with them. History is not just made from the archives. It is indispensable that in the revival of this part of the Portuguese history the direct actors who worked on board the ships and that, fortunately, are still among us today, are able to share their memories with us.

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