....NOTA DE INTENÇÕES..NOTE OF INTENT....

 

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É um mundo que vai desaparecer. As pessoas que o povoam já não são muitas. É uma pequena aldeia numa paisagem granítica, empoleirada no alto da montanha, meio abandonada. Inúmeras casas em ruína testemunham as partidas e as ausências prolongadas. Muitos dos velhos que aqui vivem foram crianças sem infância. E agora há muitas pessoas iletradas, coxas, assombrando casas outrora tão vivas. Adsamo é uma terriola rural no extremo da Europa. É um mundo devastado pelas mutações do século XX. A memória dos seus habitantes não revela apenas as catástrofes que se abateram sobre Portugal, ela conta um século inteiro de misérias, de êxodos e de guerras.

No pós-guerra, os habitantes de Adsamo partiram como sazonais para os latifúndios do Alentejo para não morrerem à fome. Emigraram para as regiões do estuário do Tejo para as secas do bacalhau e para as fábricas dos subúrbios da capital em troca de tristes salários. A partir de 1961, para evitar a guerra colonial, muitos jovens da aldeia fugiram clandestinamente para a França. A entrada na União Europeia, nos anos 80, quase que deu um golpe fatal à aldeia. Bruscamente, num mercado inundado pela indústria agrícola, os produtos da aldeia deixaram de se vender. Na serra, um quarto da população emigrou.

Procuro a história contemporânea de um país através dos relatos dos habitantes de uma pequena aldeia rural pilhada pela emigração e a guerra colonial, desmantelada pelo liberalismo selvagem. O povo de Adsamo conta a sua travessia do último século, o que foi a sua vida num país minado pela ignorância e a opressão. Estar com eles, é sulcar o tempo. Eles relatam a passagem de um tempo, em que cada pedaço de terra era cuidadosamente tratado, para este em que a maioria das terras estão abandonadas e já não valem nada. Eles falam de um tempo onde a terra era aqui o único recurso e onde aqueles que não a possuíam eram votados a uma miséria negra. Esses dizem que trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol para comer uma sopa com um pedaço de pão.

Quando ainda acontece estarem juntas no trabalho, as pessoas de Adsamo contam como se vivia aqui antigamente. Nas suas recordações, existe, ainda viva, uma comunidade de entreajuda e de alegrias partilhadas. Parece que evocam uma idade de ouro. Hoje, é quase cada um por si. Os habitantes de Adsamo, nascidos numa sociedade que parecia imutável e que mudou brutalmente, expressam o sentimento de ter perdido o essencial do que constituía a sua existência. Na aldeia, ainda há pessoas que nos falam da sua rejeição do salariado e da sociedade de consumo. Há nesta terra que parece suspensa sobre o mundo um «ponto de vida» precioso que nos ensina muito sobre as metamorfoses do mundo contemporâneo.

Em Adsamo, os cantos dos dias de labor e dos dias de festa ainda não foram esquecidos mas já não são cantados. Já não há ceifas nem carnavais nem desfolhadas como antigamente. Da comunidade rural que vem do fundo dos tempos, já só restam migalhas. Mas ainda se assiste a cenas da vida rural que relatam os tempos antigos. Aqui ainda se desfolha o milho à mão, o feijão é batido nas eiras, a uva pisada com os pés e há quem lavre as terras com os bois. O passado não foi totalmente absorvido e Adsamo é um lugar de memória onde persistem imagens duma vida secular. Estes «arquivos» carecem de gritos e de risos, de crianças e de juventude, mas informam-nos sobre o que era o trabalho da terra.

Em Adsamo, descobri um universo paradoxal, fértil em vidas intensas e saturado de pobrezas obstinadas. Comecei a explorá-lo. As pessoas contam vidas estranhas. Inventaram, nos seus cadernos de viagem imaginários, palavras para as suas odisseias. Calam as lágrimas, dizem as ofensas, mostram as suas alegrias e os seus orgulhos. Vou filmá-las nas terras quando colhem o milho, fazem as vindimas e as lavouras, nos outeiros onde levam a pastar os rebanhos, onde cortam a carqueja e o feto para a cama dos animais. Aí, na confiança dos gestos ancestrais, elas falam mais facilmente daquilo que constitui a sua vida. Nas adegas, bebendo o vinho da pipa, nas escadas de granito, gozando do fresco, no lavadouro, na fonte, elas dialogam à vontade sobre o futuro da sua comunidade, sobre o mundo de onde vêm. Aí, às vezes, põem-se a cantarolar cantos, fados e ritornelos que embelezam o romance de uma rude existência.

O filme desenvolve-se durante um ano, ao longo das quatro estações. As memórias soltam-se com o tempo. Voltarei lá para continuar a viagem no seu passado tumultuoso, para gravar os seus relatos, diálogos e cantos, filmar os gestos, os olhares, os silêncios e as paisagens. Será preciso continuar a explorar a sua língua e o seu imaginário. Serão precisos, no inverno como no verão, na primavera e no outono, quadros do trabalho nos campos e da vida na aldeia. Haverá que captar cenas da vida quotidiana que revelam a maneira destas pessoas apreender o mundo e continuar a escrita do libreto desta ópera. A ópera, diz-me o dicionário, é uma obra dramática musicada, composta de recitativos, de árias e de coros.
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It is a world that will disappear. As the people who populate it dwindle in number.
It is a small village in a granite landscape, perched high on the mountain, half abandoned. Numerous ruined houses testify as departures and as prolonged absences. Many of the old people who live here were children without childhood. And now there are many illiterate people, lame, haunting houses that were once so alive. Adsamo is a rural country in the far side of Europe. It is a world ravaged by mutations of the twentieth century. The memory of its inhabitants not only reveals the catastrophes that have struck Portugal, it tells of a whole century of misery, exodus and wars.

In the post-war period, the inhabitants of Adsamo left as seasonal workers for the latifundia of the Alentejo so as not to die of starvation. They emigrated to the regions of the Tagus estuary for cod drying and to the capital's suburban factories in exchange for sad salaries. From 1961 onwards, to avoid the colonial war, many young people of the village fled clandestinely to France. The entry into the European Union in the 1980s almost brought a fatal blow to the village. Suddenly, in a market flooded by the agricultural industry, the villages products ceased to be sold. In the mountains, a quarter of the population emigrated.

I search for the contemporary history of a country through the accounts of the inhabitants of a small rural village plundered by emigration and the colonial war, dismantled by savage liberalism. The people of Adsamo tell of their enduring of the last century, what their life was in a country undermined by ignorance and oppression. To be with them, is to tread time. They report the passage of time, from when every piece of land was carefully treated, to now that most of the land is abandoned and no longer worth anything. They speak of a time where land was the only resource here and where those who did not own it were left to a black misery. These say they worked from sunrise to sunset to have soup and a piece of bread.

Quando ainda acontece estarem juntas no trabalho, as pessoas de Adsamo contam como se vivia aqui antigamente. Nas suas recordações, existe, ainda viva, uma comunidade de entreajuda e de alegrias partilhadas. Parece que evocam uma idade de ouro. Hoje, é quase cada um por si. Os habitantes de Adsamo, nascidos numa sociedade que parecia imutável e que mudou brutalmente, expressam o sentimento de ter perdido o essencial do que constituía a sua existência. Na aldeia, ainda há pessoas que nos falam da sua rejeição do salariado e da sociedade de consumo. Há nesta terra que parece suspensa sobre o mundo um «ponto de vida» precioso que nos ensina muito sobre as metamorfoses do mundo contemporâneo.

When they still happen to be together at work, the Adsamo people tell of how it was to live here in the old days. In their memories, there is still a community of mutual help and shared joys. It seems to evoke a golden age. Today, it's almost every man for himself. The inhabitants of Adsamo, born in a society that seemed immutable and that changed brutally, express the feeling of having lost the essential of what constituted its existence. In the village, there are still people who tell us about their rejection of  salary and consumer society. There is in this land a precious "point of life" that teaches us a great deal about the metamorphoses of the contemporary world.

In Adsamo, the chants of days of labor and days of feast have not yet been forgotten but they are no longer sung. There are no more harvest festivals or carnivals like before. From the rural community that came from a time long past, only crumbs remain. But you still can see scenes of rural life that relate to ancient times. Here the corn is still peeled by hand, the beans are beaten in the threshing floors, the grapes are trodden on with their feet, and there are those who till the fields with the oxen. The past has not been fully absorbed and Adsamo is a place of memory where pictures of a secular life persist. These "archives" lack cries and laughter, of children and youth, but they tell us what work of the land was.

In Adsamo, I discovered a paradoxical universe, fertile in intense lives and saturated with stubborn poverty. I began to explore it. People tell of strange lives. They invented, in their imaginary travel notebooks, words for their odysseys. They still their tears, they say offenses, they show their joys and their pride. I am going to film them in the lands when they harvest the corn, make the vintages and the crops, in the hills where they take the flocks to graze, where they cut the baccharis shrubs and the ferns for the bed of the animals. There, in the confidence of ancestral gestures, they speak more easily of what constitutes their life. In the cellars, drinking the wine of the cask, on the granite stairs, enjoying the cool, in the washhouse, at the fountain, they talk freely about the future of their community, about the world from which they come. There, sometimes, they start to sing songs, fados and ritornelos that embellish the romance of a rude existence.

O filme desenvolve-se durante um ano, ao longo das quatro estações. As memórias soltam-se com o tempo. Voltarei lá para continuar a viagem no seu passado tumultuoso, para gravar os seus relatos, diálogos e cantos, filmar os gestos, os olhares, os silêncios e as paisagens. Será preciso continuar a explorar a sua língua e o seu imaginário. Serão precisos, no inverno como no verão, na primavera e no outono, quadros do trabalho nos campos e da vida na aldeia. Haverá que captar cenas da vida quotidiana que revelam a maneira destas pessoas apreender o mundo e continuar a escrita do libreto desta ópera. A ópera, diz-me o dicionário, é uma obra dramática musicada, composta de recitativos, de árias e de coros.

The film unfolds over a year, through the four seasons. The memories loosen up over time. I will return there to continue the journey in its tumultuous past, to record its reports, dialogues and songs, to film the gestures, the looks, the silences and the landscapes. The exploration of their language and imaginarium must be continued. It will be necessary, in the winter as in the summer, in the spring and in the autumn, to accrue depictions of work in the fields and of life in the village. There will be scenes of daily life that reveal the way these people seize the world and continue writing the libretto of this opera. The opera, the dictionary tells me, is a dramatic play composed of recitatives, arias, and choirs.
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